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Hakuna Metáforas: O Remake de O Rei Leão

A nova versão do clássico da Disney destoa de outras adaptações do estúdio e é fiel aos valores do original
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Vinte e cinco anos depois de seu lançamento, o clássico da Disney, “O Rei Leão” ganha sua versão Live Action, algo como “animação realística”. É impressionante como a computação gráfica evoluiu a ponto de deixar todos aqueles animais em duas horas de exibição com aparências tão reais. Nesse caso a Disney acertou em uma refilmagem sem buscar substituições que se subjugam ao “politicamente correto”, nem tampouco buscou empoderar personagens “femininas” (senão veríamos uma versão de “A Rainha Leoa”).
A conhecida história do filme, a meu ver, é rica e repleta de metáforas não só bíblicas, mas que, se remetiam à sociedade de 1994, também tem muito a dizer da nossa organização social tecnológica dos anos pré-2020. Para conservadores simpatizantes da Monarquia, lá está a fecunda e segura tradição, o casal real que dá a luz ao herdeiro; as diversas outras espécies não necessariamente estão divididas em castas, e convivem razoavelmente em harmonia, dentro do ciclo da vida, o ciclo sem fim. Mas há também a concupiscência, o orgulho, a inveja e a inclinação do mau coração, representados em Scar, o irmão mais velho, estilo “invejoso irmão do Filho Pródigo”, que deseja o reinado a todo custo.
Como parte de seus planos para conseguir seus objetivos, o detestável vilão, se faz passar como que pela “serpente” de Adão e Eva, e incita o jovem filhote e príncipe Simba “a conhecer e provar o fruto do conhecimento do bem e do mau”. Diante da tentação, o herdeiro sucumbe à tentação e desobedece seu pai, Mufasa, que se antecipa e chega a tempo no proibido vale dos cemitério de elefantes, para salvar a cria. Cenas depois, o Rei Leão, não resiste a nova armadilha da serpente, ou melhor, do irmão-cobra, e perece quando tem ajuda para se salvar recusada pelo malévolo Scar. A propósito, tanto na versão animada original quanto nessa, a infinita manada de antílopes, é uma arte e clímax a parte. O ambicioso vilão, com ares de ditador venezuelano, incita medo e coloca a culpa no sobrinho herdeiro para que o mesmo fuja, culpando-o pela morte do pai.
Como ocorre na realidade, quando psicopatas sem escrúpulos chegam ao poder, a nação antes próspera e cheia de vida e luz, regride para escassez de comida e é só trevas. Bem longe dali, Simba faz amigos de outras “tribos” que o ensina a arte de não se preocupar com os problemas, no estilo “deixa a vida nos levar”, não temos obrigações, e deixar que “o tudo vinde a nós” aconteça. Realmente a canção “Hakuna Matata” e todo o desenrolar dessa parte da história me remete à uma parte da geração presente, a dos jovens do nem trabalham, nem estudam, que conseguem viver à mercê dos pais, matam aulas e não tomam suas vidas na mão.
Vivem um mundo de ilusão e fuga da realidade e abstração de sofrimentos e dor. E isso ocorre exatamente por não buscarem saber quem são, tal como o personagem que esqueceu que era filho do Rei.
Precisou que a Leoa Nala, interpretada por Beyoncé na versão original, encontrasse o antigo amigo e futuro nubente, para despertar em Simba a sua vocação, para que reencontrasse a semente plantada por seu pai. Daí em diante, ele retorna ao seu povo, sob a bela nova canção “Spirit”, e assume sua identidade e missão ao enfrentar e suplantar o mau e suas hienas. A partir daí tudo volta a tomar o seu devido lugar…
As angústias e os sofrimentos sofridos pelo protagonista, antes aparentemente sem sentido, e que no decorrer do filme ocorreram como fruto da ambição, medo e desobediências, que tentaram ser superados na fuga e ociosidade, tiveram a sua superação na retomada do ciclo sem fim, no ciclo da vida, que une vida e morte, em tradição e expressão concreta do Amor que supera tudo

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