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A Balbúrdia do Cargo

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No Brasil, aqueles que ocupam cargos de alto escalão público esquecem que não são mais pessoas comuns, e sim representantes das instituições nas quais trabalham. Esquecem, também, que não “são” seus cargos, e sim, que “estão”. Após as eleições de 2018, o embate ideológico – hoje popularmente visto como bipolar – justificou diversas gafes entre os políticos e gerou muitos momentos em que os representantes desrespeitaram as suas prerrogativas em nome de discordância político partidária. De maneiras pequenas e, as vezes, até mesmo risíveis, desrespeitam a si mesmos, a população, e o processo democrático.

Bolsonaro semana passada foi pego chamando os nordestinos de “paraíbas”. Uma expressão que é, sim, pejorativa. Qualquer presidente minimamente lúcido, deveria saber que usar termos populares que possuem qualquer tipo de carga negativa estão completamente fora de cogitação no seu vocabulário. Por mais que a polêmica tenha sido amplificada pela mídia (como sempre), isso não tira do fato que o presidente precisa urgentemente aprender a se portar, principalmente em frente de jornalistas.

Mesmo assim, a falta de decoro do presidente resultou em um desrespeito ainda maior às instituições. O governador petista da Bahia, Rui Costa, recusou ceder policiais militares para integrarem a segurança do presidente ao inaugurar o novo aeroporto Glauber Rocha em Vitória da Conquista. Sua justificativa foi a de que, por ser um evento federal, a segurança deve ser feita por entes federais. A PM é a responsável por fazer a segurança dentro dos estados, e respondem ao governador. Alguém que ocupa o cargo de chefe da polícia não pode, por ser de um partido rival ao do presidente, negar que as forças do seu próprio estado auxiliem em um encontro da alta cúpula do governo federal. Além disso, também se recusou também a estar presente na abertura dessa nova grande obra de infraestrutura em uma cidade do seu estado, o que amplifica a infantilidade e revela a visão ideológica bitolada do ocupante da cadeira mais poderosa do estado da Bahia.

Falando em infantilidade, não podemos esquecer do integrante do governo que mais “sai de personagem”, o ministro da educação Abraham Weintraub. Desde o (seu) dia 1 cria polêmicas que tenta resolver de maneira jocosa e imprópria para sua posição. Mesmo quando é vítima de fake news (corte de gastos), o ministro não consegue manter postura. Seja abrindo uma guarda-chuva no ministério, seja postando em seu twitter “pessoal” como se fosse um adolescente militante desempregado, Abraham não respeita sua cadeira. Por mais que o seu plano, “Future-se” seja uma possível e provável revolução no financiamento e funcionamento das universidades públicas do país, ele estará sempre andando em ovos enquanto não perceber que Abraham Weintraub, o ministro da educação e o ministério da educação são um só.

Isso é um enxerto que precisei fazer no texto após a polêmica interação entre o presidente da República e o presidente da OAB. Na segunda-feira (29) Jair Bolsonaro direcionou a seguinte frase para o representante máximo da ordem dos advogados: “Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar eu conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Então eu conto pra ele. Não é a minha versão. A minha vivencia me fez chegar a essas conclusões naquele momento. O pai dele integrou o Ação Popular, o grupo mais violento e sanguinário da guerrilha de Pernambuco, e veio desaparecer no rio de janeiro.”

Essa é, sem dúvida, a frase mais brutal e inescrupulosa dita até agora pelo Presidente da República. Não só ele está atacando alguém que ocupa um cargo relevante na república por considera-lo “inimigo” (e sim, ele concorreu em eleições pela sigla do PT), mas está também debochando da morte do pai de alguém que, na época do desaparecimento, tinha 2 anos. Além de dar a entender que possui informações privilegiadas sobre o assassinato de alguém, sobre o qual a família da vítima ainda sabe quase nada.

Esse é só mais um episódio das diversas provocações ideológicas que deixam um rastro de inimigos nos pés do presidente da República, e que evidenciam como ele ainda precisa amadurecer. Talvez aqueles perto dele ainda não tenham notado, mas motivo que faz Bolsonaro não entender e respeitar a cadeira na qual senta é o mesmo motivo que pode leva-lo à não ocupa-la novamente.

Aposto que se prestarmos atenção todos os dias, testemunharemos sempre, em algum nível, uma atitude desse naipe. Não são piadas, não são ameaças de totalitarismo fascistas ou comunistas, não são crimes. São, sim, pequenas atitudes que fazem com que a população perca o respeito pelos seus governantes, faz com que políticos cujas decisões impactam a vida das pessoas sejam expostos ao ridículo, e que escancaram como a ideologia política, hoje, é uma prioridade maior para os políticos que o processo democrático correto e a liturgia de seus cargos.

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